Nesta página encontra 2 elementos auxiliares de navegação:Motor de busca | Saltar para o conteúdo

Portal do Cidadão com Deficiência

Associação Portuguesa de Deficientes Delegação S.Miguel

Navegação

Em conformidade com a Acessibilidade Web:

Símbolo de
Acessibilidade à Web Acessibilidade Certificada Validação W3C WAI-AAA Validação W3C CSS Validação W3C XHTML

Biblioteca + - Imprimir

Inicio » Biblioteca » Documentos Privados » DA TEORIA À PRATICA, QUE DISTÂNCIA

DA TEORIA À PRATICA, QUE DISTÂNCIA

no dia 28 de Junho de 2013
DA TEORIA À PRATICA, QUE DISTÂNCIA

 

Seria utópica ingenuidade sonhar-se modificar mentalidades, com um simples escrito, evocando uma data que se propôs lembrar o deficiente. Sem altivez nem humildade, antes, com a noção exacta de apenas desejar cumprir uma missão que nos diz respeito, pusemos ombros a esta tarefa, realmente árdua, e muito superior ao nosso talento. Diz a sabedoria popular que a experiência é o melhor livro da vida. Com a noção do dever cumprido, abramos, pois, o dito livro, “o da experiência quotidiana”, solicitando a compreensão para aqueles a quem menos ele agradar. Tendo também por divisa a franqueza, cai à partida por terra a menor ilusão de que a comemoração duma data vá além deste dia, porque todos os dias o são de tudo, e neles forçosamente satisfazemos necessidades fisiológicas. Não queremos apenas pedir, exigir, reivindicar. Em diálogo franco e aberto, também teremos muito a dar.
O ser humano, regra geral, sente-se muito mais apto, “será muito mais fácil e cómodo, com certeza”, em criticar do que apontar soluções. Não apelando para autocanonizações ridículas, não fugimos à regra. Oxalá consigamos o máximo de imparcialidade, para abordar um problema tão gritante, e que toda a sociedade, queira ela ou não, diz respeito. Repudiemos Esparta, que só criava o soldado, alinhando com Atenas, que visava formar o cidadão. Daí que colhesse os frutos, pois durante largo tempo foi hegemónica sobre as outras cidades – estado gregas.
Sendo concretos, apelamos, mesmo que a nossa voz caia em saco roto, para que mais esta comemoração não passe de mais uma entre muitas, em que se dá umas palmadinhas nas costas, se confraterniza, com os beberetes habituais, e pior ainda, que aqueles que dizem servir a causa dos deficientes não tenham em vista, quais santinhos de pau carunchoso, apenas aparecer nos meios de comunicação, açambarcando em proveito próprio o que a outros pertence. Tal, seria a mais aberrante negação do fim que se tem em vista. A rainha D. Leonor fundou as misericórdias com a melhor das intenções. Só que destas transborda o inferno. Não queremos ofender ninguém, em particular. Mas manda a frontalidade e constatação dos factos, que a carapuça enfie em muito boa gente.

2 – O DEFICIENTE E A FAMÍLIA

Para que uma casa resista, tanto quanto possível, às violências da natureza, deverá ter fundos e consistentes alicerces. Construída sobre areia, à menor rajada será inevitavelmente sepultura dos seus moradores. Só nas horas críticas das doenças valorizamos a saúde. E apenas quando perdemos algo que nos faz falta, gritamos: “aqui D’el-rei!”. Mas também sabemos que a vida é um encadeamento de eventos que facilitam ou dificultam cada cidadão, consoante o meio em que vive e as possibilidades de que dispõe. Ao nascer uma criança, antecipadamente se fizeram muitos votos para que viesse em boa hora e sem defeito. É humano! E quando esse ser cai no mundo com uma deficiência? Após as primeiras lágrimas, aos pais competirá, “e oxalá fossem sempre capazes” de ajudar o seu rebento a enfrentar a vida com menos um dos cinco sentidos. E, se a deficiência for múltipla, mais paciência, força de vontade e abnegação terão de despender. O amor, quando atinge a superprotecção, torna-se, embora inconscientemente bem intencionado, não só egoísta, como, pior ainda, prejudicial ao alvo de tantos cuidados: a partir de então, o rebento não pode dar um passo, não vá magoar-se; desde logo se mentaliza que só tem direitos: ignorando os deveres, quer apenas receber; e o verbo “dar” evapora-se do seu vocabulário. Que erro, por incapacidade de melhor raciocínio, cometem os pais! Nunca lhes passou pela cabeça que um dia faltarão ao seu descendente, e então, triste e calamitosa realidade, ele será um fardo para quem tiver de o aturar. Felizmente que aqui, julgamos não ser tão assustador como isso o número dos que assim procedem. Há também aqueles que querem e não podem. Falta-lhes tudo, principalmente os meios de subsistência. E recorre-se à mendicidade, como último refúgio. Por que não se vive do ar e vento, alega-se que, “antes pedir do que roubar!”. É uma verdade, porque ninguém tem culpa de cair no mundo. Incapazes de colmatar tais carências, acomodamo-nos, cada vez lutando menos, vergados à conformação do que diz a Sagrada Escritura, para os crentes, evidentemente, que “pobres e ricos sempre haverá”! Este assunto daria panos para mangas, mas cairíamos na tentação de fugir ao assunto principal. Pais: são deficientes que vos falam: não vos enluteis, porque tendes dentro de portas, um cego, surdo ou aleijado. Como mais adultos que sois, ajudai-o, fazei-lhe ver que ele é um homem, um futuro servidor da comunidade que, com os meios que lhe proporcionem, ocupará dignamente o seu dia-a-dia, com o direito a um salário mais convincente que as incertas “esmolinhas”.
De princípio será difícil. O primeiro choque é sempre mais penosos. Mas depois… que sonho transformado na mais doce realidade! Com os meios cada vez mais sofisticados podemos chegar longe! É só ter força de vontade, e acreditaremos que o galardão da perseverança venha por acréscimo: ressurgirá do fundo do túnel, vencendo as trevas, a luz mais optimista, que triunfará sobre o desânimo, o desinteresse pela vida, etc. É que sem a justa ambição na luta, a existência de cada um seria um vácuo. Pais: trazei os vossos filhos junto de nós. Com um pouco mais de experiência, e alguns meios de que já dispomos, talvez a nossa ajuda lhes seja mais útil, porque ninguém melhor do que um deficiente, para dar testemunho a outro, incutindo-lhe mais esperança, quase certeza, num futuro melhor. Conservá-lo em casa, aferrolhá-lo entre quatro paredes, desculpai a franqueza, é transformá-lo num sepulcro andante.
E, já que nasceu, a vida é tão bela! Porque negá-la, a quem, como qualquer outro, tem todo o direito à sua partilha? Enquanto, ainda na tenra idade, quase mastigais o peixe dos vossos filhos, à medida que crescem, metei-lhes uma cana de pesca na mão, levai-os à beira mar e, com o controle necessário, para evitar precipitações, ensinai-os a pescar. Tereis sido o melhor dos pais, assumindo a responsabilidade total da vossa procriação, preparando um futuro homem de bem, pronto para enfrentar, na hora própria a vida, sozinho.

3 – TENTEMOS ELUCIDAR, NA RECIPROCIDADE

Os colégios, internos ou não, ensinam-nos as primeiras letras. Abrem-nos de par em par as portas que, quando começamos a raciocinar, julgávamos completamente cerradas. Já sabemos ler, escrever, fazer contas, uma redacção, enfim estamos lançados na vida comum a todos, sonhando com uma próxima integração. Por vezes segue-se um estádio, quem o teve, e depois entramos declaradamente e no bom sentido, na luta aberta, nas cabeçadas, mais ou menos violentas, contra a agreste muralha quotidiana. Isto é, passamos da teoria à prática. Se até então só nos preocupámos com os estudos, agora deparamo-nos, inseridos na selva humana, com tigres e golfinhos, passe o simbolismo, do mal e do bem, sempre na mais indissolúvel das amálgamas. Que cerrar de dentes, para não vacilar! Quantas lágrimas testemunhadas, amarga e silenciosamente, à mais fiel das confidentes: a almofada! Mas é preciso lutar, é necessário vencer, provar que somos seres de carne e osso, saberemos respeitar quem nos respeita e… sem santidades fictícias de herói frustrado, virar os dentes a quem nos agride. Tal como aqueles que usufruem dos cinco sentidos, um deficiente de qualquer espécie nasceu, cresceu, revestindo-se de virtudes e defeitos, que nada têm a ver com as carências físicas. Quem partir uma perna, temporariamente protegê-la-á com gesso. Não é por isso que lhe incutirão melhores ou piores qualidades… em geral há a tendência totalmente errónea, de generalizar: um advogado, médico, padre, etc., se proceder bem, os oficiais do mesmo ofício serão exemplos a seguir. De contrário, todos deverão ser crucificados ou fuzilados, que é mais rápido. É preciso o máximo cuidado para não cometer erros fatais: um pai pode ser a criatura mais virtuosa, tendo um filho criminoso ou vice-versa. Embora se diga que um espinheiro não produz laranjas, não é menos verdade que cada um pensa pela sua cabeça. Apelamos à maioria, aqueles que se conduzem na vida aparentemente sem ajudas, para não elegerem um deficiente como herói de cinema, capaz de fazer tudo e mais alguma coisa, nem tão pouco cair no extremo oposto, de o considerar um coitadinho, a quem é preciso vestir, levar ao colo para toda a parte, e por aí adiante. Considerem-no um cidadão normal, dentro das limitações que todos têm, cada qual à sua maneira; habituem-se a ver nele alguém com sentimentos, capaz de dar e receber, enfim, tentem que, no convívio diário, a sua carência passe totalmente despercebida. Poderíamos aqui testemunhar cenas verdadeiramente caricatas, que bem se teriam evitado, se houvesse mais aproximação, maior diálogo. O fechar-se cada um no seu casulo é que origina na maior parte das vezes atritos em que ambas as partes ficam mutuamente mal impressionadas. Tenhamos em conta que o cidadão comum, ao ver passar um cego, na rua, lamenta a sua sorte, dizendo toda a espécie de disparates, como por exemplo: “antes fosses mouquinho” pode obter em resposta: “realmente era bem melhor, porque já não te ouvia aí a asnear!” A cena muda radicalmente: o “coitadinho” transformou-se de imediato em “malcriadão”, unicamente porque lhe negaram o direito de autodefesa, que lhe saiu, como desabafo! Isto é muito complicado, realmente! Todavia ouvir e calar, convenhamos que não é para todos os estômagos. E com a agravante da cena se repetir diariamente, passe o exagero, se o é. A comiseração começa por humilhar; e, à medida que vai fazendo mossa, revolta, e vem a inevitável explosão.

4 – O DEFICIENTE E A AFECTIVIDADE

Talvez seja um incomensurável arrojo abordar um assunto tão delicado, sem quaisquer noções de psicologia. É, contudo, a experiência que nos confere tal direito, com as devidas excepções à regra. Julgamos que um deficiente terá uma bem maior capacidade de se dedicar na amizade e até no amor, na possível condução ao casamento. Isto, se agir não só com franqueza, mas principalmente com os pés bem assentes no chão. No caso dos cegos, mais especificamente, eles deveriam apaixonar-se de preferência pela formosura interior, pelo menos aquela que idealizaram, por incapacidade de avaliar por si próprios a beleza física, quantas vezes pura ficção, transportada para a vida real! Quanto mais vale um coração terno que uma cara bonita? Tem-se discutido largamente o problema do casamento entre dois cegos, ou de ser apenas um dos cônjuges desprovido da visão. Sem querer misturar indivíduo com classe, quase que pomos vantagens e inconvenientes em equilíbrio, na balança! Comodamente, é lógico que os olhos fazem muita falta. Entretanto, no aspecto emocional, não será, por exemplo, menos doloroso pregar uma valente cabeçada, em plena rua, de bengala na mão, que ouvir em casa, num desabafo, que poderá ter muito de verdade: - já estou farta ou farto de cegueiras, à minha volta! Pode ser o fim, o desencadeamento brutal de atitudes irremediáveis. É um problema extremamente melindroso! E, embora “o amor e uma cabana” seja pura utopia, quantas vezes antes um casebre moralmente aconchegado, que a algidez dum palacete, no qual se convive com computadores, desconhecendo os seres humanos!...

5 – FINALMENTE, O DIREITO À VIDA E À LOCOMOÇÃO

Ter a ousadia de chamar aos deficientes extremamente reivindicativos, é ignorância crassa, e brutal desumanidade: metamorfoseiem-se e, envoltos na nossa pele, mediram distância entre a teoria e a prática. Sem dúvida que a fractura só magoa a quem foi vítima dela. Sim; jamais nos recusaremos aos deveres que nos exigirem, dentro das nossas limitações, que diminuíram quanto mais adequados forem os meios que puserem ao nosso alcance, para levarmos a cabo aquilo a que nos comprometemos. Olhem-nos de igual para igual, abram-se-nos lealmente, e terão retribuição condigna, sempre ressalvando excepções à regra: desde sempre uma andorinha não faz a primavera. Consta-nos haver subsídios governamentais para as firmas que empreguem deficientes. Nesta atitude apenas louvamos a boa intenção. No entanto, tal nem deveria ser necessário, porque esse cidadão, se já em si desempenha cabalmente as suas funções, à partida garantiu o pão quotidiano, sem o menor travo de esmola, mas com toda a justiça. Para si próprio, a possível família que possa ter constituído exige, mais do que solidariedade, justiça social, na medida em que o homem é um ser nascido para a comunhão de ideias e necessidades. Um deficiente responsável não quer ser posto no altar, nem tão pouco ignorado. Mas anseia partilhar de tudo, dado que se sentiu integrado, desde que direitos e deveres o equipararam aos seus semelhantes. De tais reivindicações ou exigências, e como não só de pão vive o homem, pretende que lhe respeitem a locomoção, desobstruindo os passeios, aonde a cada passo encontra veículos indevidamente estacionados, além de outros obstáculos, buracos mal assinalados que muitas vezes lhes causam, não só grandes traumatismos, como também, num trambolhão mais violento lhe podem ceifar a própria vida. A bengala, o seu “olho artificial” não tem capacidade, nem de perto nem de longe, de detectar obstáculos, por exemplo, que estejam no alto; e aí é a cabeça a vítima principal. Após o roubo, não adianta trancar a porta, porque pode já não ficar nada em casa para acautelar. Joguemos na prevenção, e teremos à partida evitado muitos males a cidadãos semi-indefesos.
Recentemente implantada nos Açores, a ACAPO tudo fará para defender os seus associados embora tenha de enfrentar muita luta. Por exemplo, num arquipélago de nove ilhas, é-lhe muito difícil agregar e ajudar aqueles que dela carecem! Viajar de avião não é tão simples para bolsas vazias, como de comboio ou outro meio de transporte terrestre.
Finalmente, em relação aos continentais, quem goste de cultura, vive muito mais isolado, reduzido à miséria: em Lisboa, por exemplo, pode preencher-se um serão, ouvindo uma peça de teatro. Aqui, são tão raras… muito mais haveria para dizer.
Fomos longos em demasia. Mas que ao menos, mesmo sendo um enorme frete para os presentes que o Dia Internacional do Deficiente sirva para lhes chamar à atenção do que demais gritante nos coage e preocupa. Na maior solidariedade humana, sem racismos, que não levam a nada, ajudemo-nos mutuamente, quais células que fazem todas parte do mesmo tecido. Só assim, este será mais saudável e duradouro bem hajam aqueles que nos ouviram com paciência. E, tentando aproximar um pouco a teoria da prática que ao menos um dia em cada ano tenham cabimento e produzem alguns frutos no íntimo de quem fez o sacrifício de ouvir, do princípio ao fim o nosso desabafo. Se, por um lado, pela boca morre o peixe, por outro, quem não fala, morre sem confissão. E, como não conseguimos usar o meio-termo, que os interessados conheçam o que vai na alma de uma classe que, de certo modo, incompreendida e marginalizada, exige mais respeito pela sua independência.

Francisco Medeiros Quarta

EM DESTAQUE

PRÓXIMOS EVENTOS

Mais Eventos

INQUÉRITO

Março é o mês da Saúde dos Pés. Já consultou um Podologista?

  • Sim
  • Não