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PETE E A CEGONHA

no dia 28 de Junho de 2013
PETE E A CEGONHA

 

Nessa altura ela tinha 20 anos, prestes a fazer 21. Solidamente constituída, proporcional, de feições harmoniosas e atraentes, vivacidade graciosa, quando o ventre começou gradualmente a ganhar os contornos esféricos a denunciar a magia do milagre em construção. A cegonha estava a caminho com o seu cesto, onde normalmente transporta, donde não se sabe, para este Planeta, uma unidade de vida que irá cumprir o seu ciclo de estar, agindo. As mulheres, por serem elas as privilegiadas naves transportadoras de algo que é indescritível, grandioso, belo e fascinante, ficam, geralmente, a luzir de luminosidade interior. A construção do corpinho vai-se fazendo num ritmo que a Criação engendrou. É uma situação que não está, no entanto, isenta de perigos. Na realidade, todos nós, estamos permanentemente rodeados de ratoeiras, quer queiramos ou não, dentro ou fora do ventre materno.

No catálogo de perigos figura um tormento de nome "Rubéola". Trata-se de um Ser Patogénico, microscópico que só causa danos severos ao feto nos primeiros meses da gestação. Quando uma mulher contrai esse vírus durante os primeiros tempos da gravidez, corre o risco de dar à luz uma criança com cegueira e outras complicações. Esta doença arma uma eficiente cilada à construção do aparelho visual, e quando não mata, geralmente causa atrofias lesivas de um funcionamento normal como um ser humano. Passa uma Sentença irrevogável de cegueira que é para durar toda a vida, até vir a outra Cegonha para a viagem final. Os médicos recomendam vivamente que as adolescentes sejam vacinadas contra a Rubéola. É uma recomendação que deve ser tomada como uma advertência. A vacina é fácil de suportar.

Foi isto que aconteceu à mãe do Pete Alexandre Gomes Alves que nasceu em Moçambique, na Província de Quelimane. O pai é oriundo de Portugal Continental e a mãe natural de Quelimane. Tendo nascido em 1978, o Pete tem agora 25 anos de idade. Por serem os pais, ambos trabalhadores, e por não haver localmente apoios a este tipo de situações, o rapaz foi criado rodeado de boas vontades, mas na total ignorância do que são os cuidados e educação adequados para atenuar as dificuldades impostas por uma cegueira e outras fragilidades do sistema nervoso central. Diz que até aos cinco anos teve uma vida vegetativa. Tinha muita curiosidade mas muito pouca actividade. O coração da mãe, podemos facilmente imaginar, estaria dilacerado sem tréguas. Que golpe duro e tão cedo na vida. Tudo parecia sorrir. Não havia nenhuma premonição da desgraça. Que rumo teria tomado a sua vida se náo fosse esta ocorrência?

A mãe trabalhava na companhia aérea LAM (Linhas Aéreas de Moçambique). Pegou no filho e noutro que entretanto teve, tinha o Pete cinco anos, e veio para Portugal. Conseguiu convencer os responsáveis da Companhia para a deixarem trabalhar para a mesma em Portugal, em Lisboa.

Matriculou o filho no Instituto Helen Keller, sem perda de tempo. Aqui começa o caminho que conduziria o Pete a uma emancipação progressiva. Foi muito lentamente corrigindo os maneirismos (certos gestos e tiques característicos de autistas e alguns cegos congénitos). Começou a ganhar mais vitalidade, a brincar com outras crianças, a aprender o braille e outras disciplinas escolares. A professora de mobilidade, Fátima Vieira, e o professor Arménio, de braille, exerceram uma forte influência benéfica, reconhece o Pete. Frequentou o estabelecimento escolar a partir de Reboleira, Amadora, onde vivia com os pais e o seu irmão. O relacionamento com os pais tem sido sempre salutar e harmonioso, embora os pais se encontrem amigavelmente separados actualmente.

Em 2000 o Pete entre na APEDV como formando do Curso de Telefonista-Recepcionista. De habilitação escolar trazia o sexto ano. Ainda carregava consigo uma boa dose de timidez e uma auto-estima, um tanto ou quanto, a precisar de reforço. Afigurava-se-nos um caso difícil, mas o milagre deu-se. Na APEDV nós temos vindo a testemunhar, com alguma frequência, verdadeiros pequenos milagres. Os dois anos que esteve na formação nas instalações da Instituição, serviram para isso, bem como, para outras coisas relacionadas com a matéria profissional propriamente dita. Sou suspeito a dizer isso, mas reconheço que a APEDV proporciona aos seus utentes, um ambiente desanuviador, criando assim, as condições ideais para flexionar os músculos das asas e alisar as penas, em preparação para o voo libertador.

Presentemente o herói da nossa história está a fazer um estágio profissional, como telefonista, na Câmara da Amadora, graças ao espírito de colaboração da Autarquia, bem como, por efeito das diligências da nossa equipa de colocações, formada pelas Dra. Graça Hidalgo e Carminda Pereira. No emprego é bem visto. Cumpre o horário estabelecido. Dá-se muito bem com a colega de trabalho, com a qual forma uma equipa harmoniosa, onde o entendimento não deixa vagas para fricções. É independente nas suas deslocações. Aprendeu a usar a bengala com eficiência.

O nosso Pete é uma pessoa muito afável. Tem uma estatura média e uma voz calorosa, cheia, bem articulada e muito agradável. Para além da cegueira propriamente dita, não mostra diminuição de outros atributos sensoriais. É bom garfo, saboreia as comidas e bebidas. Sabe distinguir os diferentes perfumes e não é indiferente ao cheiro de comida quente prestes a ser posta na mesa. Gosta muito de passear com amigos. Tem alguns chegados porque tem facilidade de se relacionar com outras pessoas. Noto que ele tem uma grande preocupação de não errar. É muito cortês ao lidar com os outros. A sua fala é polida e de vocabulário cuidado. Onde ele se destaca visivelmente é na sua capacidade invulgar de captar as letras de canções e cantá-las afinadamente, enchendo os ouvidos dos que o escutam, de satisfação deslumbrante. Quando, em 2000, a APEDV realizou um espectáculo de variedades no Teatro Maria Matos, o Pete encantou a audiência com o seu talento. Foi nessa altura acompanhado por dois amigos seus, ambos músicos profissionais, com os quais mantém um relacionamento fraterno e de convívio regular.

A perspectiva de o Pete ficar a trabalhar na Câmara é boa porque ele dá conta do trabalho. Estamos certos que a Câmara tudo fará, apesar dos tempos difíceis, para o integrar no seu elenco de trabalhadores. Todos nós da APEDV desejamos de fundo dos nossos corações que isso aconteça. Teremos mais um cidadão emancipado a viver de cabeça erguida, a suportar as suas despesas, a pagar impostos, apesar do flagelo da cegueira. E, apesar do azar ter batido à porta, os progenitores sentirão uma alegria indizível e um alívio balsâmico.

É assim a missão da nossa Instituição: devolver à Comunidade os seus membros, incomodados visualmente, depois de lhes dar as técnicas e os instrumentos da eficiência profissional, necessários ao seu desempenho como cidadãos de plena estatura, apesar da cegueira, e, fazendo isso, contribuir, ainda que de uma forma minúscula, para a elevação civilizacional do nosso País tranquilo que muito amamos.



(06-07-2003)



Assis Milton

(O Presidente e Fundador)

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