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VISLUMBRAR O FUTURO, COM OLHOS NO PASSADO: OS CAMINHOS DE UMA ESCOLA HUMANA

no dia 28 de Junho de 2013
VISLUMBRAR O FUTURO, COM OLHOS NO PASSADO: OS CAMINHOS DE UMA ESCOLA HUMANA

 

VISLUMBRAR O FUTURO, COM OLHOS NO PASSADO:
OS CAMINHOS DE UMA ESCOLA HUMANA

MARINA S. RODRIGUES ALMEIDA
Psicóloga, Psicopedagoga CRP 06- 41029/6
marina@iron.com.btr



Pais, educadores e demais profissionais estão se deparando, com um dilema: “Como educar nossos filhos para uma sociedade futura ?”.

Nossa preocupação e angústia vêm da natureza de não conhecermos em detalhes os aspectos fundamentais desta futura sociedade!
Se concordarmos que a função da Educação é a preparação das pessoas para o seu futuro, neste momento ninguém pode saber com exatidão como será o futuro, nem o futuro mais próximo.

Não sabemos, por exemplo, as conseqüências, das possibilidades da clonagem humana ou dos resultados do Projeto Genoma. Essa incerteza pode nos deixar paralisados, insatisfeitos com a maneira de realizar "uma educação", precisamos ter coragem para desafiar os erros para encontrarmos novas maneiras de “fazer” ou “refazer” a prática pedagógica.

Neste sentido, a Sociedade Contemporânea está passando por uma série de modificações estruturais que nos obrigam a reavaliar aquilo que estamos fazendo em Educação, e tentar alinhar este esforço à realidade que existe fora da instituição acadêmica. Por exemplo, muitas carreiras estão sumindo no cenário nacional e internacional, devido à informática e à globalização; por outro lado, carreiras novas estão surgindo.

Como deverá ser esta escola e este educador nessas condições? Como é preparar um educando num mundo de velocidade, de mudanças na sociedade, para um mundo de valores e de atividades profissionais diferentes das atuais?

Acredito que a meta principal, da Educação, da escola e do educador, tenha que ser investida no preparo do futuro adulto para pensar sistematicamente e ecologicamente. Exatamente o oposto da nossa Educação atual, que apesar de suas modificações através dos Parâmetros Curriculares, ainda está sendo aplicado na prática para formar os alunos baseando-se em fatos históricos e científicos potencialmente úteis no futuro, mas aplicáveis apenas no exame vestibular para entrada numa universidade.

A nova meta da Educação tem que ser como pensar e não o que se pensa. Os principais problemas de nosso tempo não podem ser compreendidos isoladamente, mas vistos de forma interconectada e interdependente. A maneira de pensar deverá ser "holística" (vendo o mundo como um todo, integrado) e "ecológica" (reconhecendo a fundamental interdependência de todos os fenômenos naturais), tanto como indivíduos como sociedade, todos nós estamos inseridos dentro de processo cíclico da natureza.

O holístico também é parcial, pois depende de quem está vendo, em que momento, lugar, situação, de quem se trata, para que... Portanto nunca teremos um controle do todo, mas podemos ter maior chance se nos propusermos a considerar vértices e opiniões diferentes da nossa.

Uma visão holística da escola, significa vê-la como um todo funcional, compreendendo suas inter-relações entre as partes envolvidas.

Numa visão ecológica, implicaria a percepção do nosso ambiente natural e social, portanto de que precisaremos para executar este paradigma? quais as estratégias fundamentais? como as pessoas estão afetando o meio ambiente natural, nosso cotidiano e a comunidade? Por exemplo uma questão muito simples, o uso do papel na escola de forma descartável: que tipo de investimento estamos fazendo nas matas e reposição das florestas? e a sociedade está disposta a investir nisso? visto que a arborização está ligada a nossa qualidade de oxigenação, fonte determinante para a sobrevivência humana? sem falar do uso da água e energia elétrica.

São questões fundamentais para serem pensadas, as quais são investidas em larga escala para a manutenção do nosso mundo que almeja a velocidade, segurança, conforto, prestígio e seus efeitos no meio-ambiente. Isto envolverá valores diferentes, dependendo da escolha de sua marca de papel, se reciclável ou não, se a indústria que fabrica repõe o reflorestamento, se o equipamento eletrônico é de baixo consumo, de alto consumo,...

A pessoa poderá ser vista como uma pobre coitada, alguém de bom senso, respeitável, admirável, o rico que tenta esconder suas fragilidades através do consumismo e outras tantas possibilidades.

Hoje dependendo da cultura, do local, do tipo de escolha que fazemos encontraremos valores diversos. Isto inclui que tipo de escola desejamos, que tipo de professor desejamos, aonde matriculamos nossos filhos, etc...

A metáfora central da ecologia, é a rede em oposição à hierarquia (estrutura de poder); é provável que teremos uma mudança na organização social, de hierarquias para redes, em vez de um paradigma baseado em valores antropocêntricos (centrados no ser humano) surgirá um paradigma baseado em valores ecocêntricos (centrados na Terra), reconhecendo o valor inerente de vida não humana.

Podemos considerar que os valores poderiam estar voltados para o tipo de escolha que iremos fazer e suas conseqüências: se for poluente, se usa material reciclável, se beneficia a saúde da pessoa ou a torna sedentária e dependente, se ocupa muito espaço, etc ...

A partir desses conceitos, precisaremos de um novo sistema de ética, diferente do atual, e nossos filhos deverão ser preparados para sobreviver no futuro entendendo dos princípios básicos da ecologia: interdependência, reciclagem, parcerias, flexibilidade, preservação, respeito, cultivo e diversidade.
Neste momento a Escola, o educador e todos nós, precisaremos investir na consciência do nosso meta-pensamento, isto é, saber como se resolve um problema. Significa pensar em termos de conexões, relações, contexto, interações entre os elementos de um todo; de ver as coisas em termos de redes e comunidades. Como a cadeia alimentar, a cadeia de predadores que inclui o homem como o único que mata sem ter fome, que destrói sem ter motivos, apenas pela satisfação e onipotência de seu domínio sobre as espécies “inferiores”.

Levar o educando a saber pensar sistematicamente envolve capacitá-lo a ver "processos" em qualquer fenômeno, de ver mudanças (reais ou potenciais), crescimento e desenvolvimento, de compreender coisas através de um todo que é maior do que a soma das suas partes; de reconhecer que as nossas percepções estão alienadas pelos nossos métodos de questionamento e que a objetividade em ciência é muito mais uma meta do que um fato.
Ver o mundo em termos de sistemas interconectados envolve conhecimento de cibernética (padrões de controle e comando), e de como lidar com complexidade e com estruturas dinâmicas.

As próprias escolas poderiam ser convertidas em organizações de auto-desempenho. A sobrevivência tanto nas organizações como nos ambientes escolares dependerá mais de sua capacidade de funcionar com alto-desempenho do que de outros fatores, como monopólios, patentes, territórios exclusivos, sigilo ou localização. E as escolas que não se adaptarem á nova realidade serão colocadas à margem do processo.

As escolas acreditam que trabalho-em-grupo é uma coisa natural ou esporádica, espontânea, sendo que isto não é um fato, há necessidade de um vir-a–fazer em conjunto, o desafio será comum, as propostas de forma grupal com caráter mais solidário, substituindo o velho instinto de homem gregário, predador e antropofágico.

A capacitação dos professores talvez requeira este novo desejo do fazer junto: o "trabalho em grupo" sendo uma estratégia na sala de aula e o papel do professor como mediador dos alunos. O próprio educador precisa se tornar um agente de mudança trabalhando em grupo com seus colegas, com outras pessoas da escola.

As novas tecnologias de comunicação nos permitem individualizar a aprendizagem, deixando cada aluno navegar sobre vastos territórios de informação virtual, imagética e sonora, destacando os assuntos que agradam e isolando os que desagradam, aprofundando-se nas categorias de informação que se afinam com o seu "saber" individual de aprendizagem.

O saber precisa ter sabor, precisa ter gosto, agradar o paladar, degustar, apreciar, despertar desejos de quero mais.
De que professor estamos falando? Falamos da passagem do professor para o educador, uma mutação.

Hoje estamos vivendo na Era da Informação, um novo espaço está sendo criado, servido, colocado à mesa para ser provado. Então falamos de uma intersecção entre ciências a Comunicação e a Educação, nascendo o Educomunicador, assim como nasceu da intersecção da Psicologia e Pedagogia, o Psicopedagogo.

Em tempos de reflexão e mudanças de paradigmas, o Sistema Educacional também está sofrendo suas pressões. Começando através das novas correntes de aprendizagem, “o indivíduo constrói seu conhecimento em conjunto com o movimento sócio-cultural” (FREIRE, 1978), a inter-relação professor/aluno, “ A Geração Net” (SOARES, 1998), e chegando a mudança da identidade do educador do século XXI, o “Educomunicador” (SOARES, 2000). Definindo educomunicador como aquele mediador das tecnologias de comunicação, desenvolvidas em conjunto com as teorias das Inteligências Múltiplas e Emocional de H. Gardner, D. Goleman.
Referenciamos também para colaborarem com nosso olhar as grandes contribuições dos psicanalistas. D. Winnicott e W. Bion.

O primeiro autor propõe os paradoxos humanos e sua experiência cultural enquanto o segundo refere-se ao ser humano como sendo um tipo de artista latente que precisa ser descoberto.

Estas contribuições podem nos ajudar a obter um excelente espectro de tonalidades para atuação. Contudo não consideramos as mesmas como estruturas fechadas, técnicas mágicas e mais uma avalanche de especialistas. Entendemos aqui como um produto de movimentos científicos que se chocaram sem causa aparente, mas tendo resultados, efeitos mutantes e diríamos interessante: a transformação de riquezas dispares e comuns, cujos fenômenos originários ocuparam um lugar. Parafraseando W. Bion, talvez fossem pensamentos que sempre estiveram ali a espera de um pensador! Não temos as respostas, apenas constatações.

Sabemos que a Mídia é o quarto poder de controle, pois aliena, ilude, manipula, desperta desejos desnecessários para nossa sobrevivência, individualiza, compartimenta, é o lugar que representa o narcisismo do ser humano. Suas formas de espaços de veiculação de informação como: a internet, televisão, rádio, jornais, e outros..., é aonde se encontra sua força; poderemos pensar na possibilidade de revertermos à mesma força negativa em sentido contrário em divulgadora, promotora de eventos, de noticias, de produção da escrita, da linguagem, dar voz, exercício de cidadania, dissolver o enaltecimento do individualismo, da veiculação da desgraça, da violência e do sensacionalismo.

Mas que escola estamos procurando? a Escola sensacional, espetacular, continente, criativa, saborosa, atraente, sedutora e que tenha leis éticas.

Usamos Ético, originalmente do substantivo feminino ética, do latim ethos (= minha morada). Designa a reflexão filosófica sobre a moralidade, sobre as regras e códigos morais que orientam a conduta humana, estabelecendo os conceitos do bem e do mal, numa determinada sociedade, em determinada época. Na Filosofia, a ética é conceituada pela elaboração de um sistema de valores e o estabelecimento dos princípios normativos da conduta humana.

Quais são as noticias da escola? espetáculos escolares preenchidos por imposições curriculares, desqualificação do papel do professor, desgraças, submissões, reféns de gangues de alunos, morte de professores, evasão escolar, pichamento, repetência, superlotação de alunos por sala de aula, exclusões, toda sorte de patologias e dificuldades de aprendizagem. A violência escolar pode ser entendida como uma denuncia da própria violência perversa do sistema educacional em nosso país, em muitos paises, e sem tirar nossa responsabilidade: da nossa maneira de viver, a qual desejamos e almejamos tanto.

Entendemos que há uma crise generalizada do saber, talvez porque tenha perdido sua essência : o sabor!

Encontramos o abandono, desamparo, a falta de possibilidades em atender demandas de crianças e jovens em suas necessidades do cotidiano. A família não é a mesma, sua estrutura mudou, não sua tradição. Todas as patologias, e os desconfortos familiares chegam a escola, ao professor, a equipe escolar... todos sentem-se impotentes para lidarem com esta dinâmica afetiva, empobrecida que clama por saídas.

A sociedade atual exige pessoas detentoras de tipos diferentes de criatividade, com talentos variados, sobrepostos e mutáveis. Como um prisma que distribui a luz num campo visual, a teoria das múltiplas inteligências seria um bom exemplo, se entendida assim e aplicada no planejamento educacional, criaria condições para a produção de pessoas diferentes. Ela nos mostra como levar o aluno do material acadêmico, que serve como suporte até chegar às metas finais, permitindo que cada um adquira, do seu próprio jeito, através do seu próprio estilo individual de aprendizagem.
Sabemos que no futuro muitas pessoas terão uma jornada de trabalho mais curta do que a atual, e sobrará mais tempo para o lazer.

E o que faremos? Este é outro dado a ser considerado.
Um educando exposto às experiências ecológicas, holísticas e grupais numa escola pautada na ética, poderá se transformar no futuro um cidadão, que terá condições de acrescentar mais a sua vida em termos de prazer, crescimento emocional, respeito e sabedoria. Precisamos vislumbrar o futuro com olhos no passado!
Sabemos que o novo paradigma está sendo proposto pela Biologia – a Genética (o universo visto como um e muitos organismos, entes auto-reprodutivos, se auto-organizados, levando a examinar as coisas em termos de seus relacionamentos externos, os seus contextos, a sua conectividade, o seu crescimento e evolução).

Não conseguimos penetrar no mundo em si, mas percebemos as riquezas das relações entre os fenômenos, descobrimos que o importante não é a estrutura e sim o processo, a conectude.
Estas idéias complementam duas outras correntes intelectuais que têm implicações fortes para mudanças em Educação: a inteligência artificial - cibernética (utilizada para examinar os processos cognitivos no ser humano e suas possíveis aplicações na construção de máquinas "inteligentes") e a vida artificial (estudo de sistemas criados artificialmente por robôs que exploram, constroem, matam; além dos anti-vírus e os vírus de softwares que protegem, alertam, defendem, invadem, contaminam, destroem, encubam, se modificam...).

Esse segmento inclui pelo menos algumas das características, ou propriedades, de "vida humana real" (por exemplo, crescimento, reprodução, auto-manutenção, auto-regulamentação, exigência de nutrientes, energia, vida, sobrevivência, morte), pressupostos que levam a pensar sobre a evolução e o comportamento humano.
A escola da atualidade necessita ser mais flexível, ser inteira e representar a vida. Nossas escolas baseiam-se inteiramente em torno da noção de disciplina e comportamento. O educador, quando em última análise, deveria ser professor de gente, não de matérias, conteúdos, reprodutor do sistema.

A escola corre atrás de resultados quantitativos, e deixa de ser de qualidade perdendo a oportunidade de entender como se chega aos resultados. Alunos mal comportados são excluídos do sistema, não há lugar para sofrimento humano, pensar a dor, afeto, é algo muito complexo para nossa escola abarrotada de alunos nas classes. Como ouví-los?, como criar espaços suficientemente humanos de intervenção ? Mas temos o jargão democrático para aferir “toda criança na escola”, mas ninguém pergunta: como?, de que maneira está na escola?, qual seu efetivo aproveitamento?, instalação?, qualidade?

Podemos criar várias disciplinas falando de cidadania, honestidade, etc... Os valores têm de ser vividos, vivenciados; a crise na educação não é outra coisa senão a perda de sentido, nos remete a idéia da educação ter um sentido coletivo.

Falamos de ética, valores, inteligências, em nossas escolas, mas será que a escola vive isso, afinal o que os alunos vivem na escola, salvo as exceções?

Não proponho respostas mas desenvolver nossa capacidade de pensar criativamente o cotidiano, talvez encontraremos diversas soluções paulatinas.

Reconhecer que podemos promover uma nova forma de aprendizagem, muitas vezes longe do que pretendíamos como objetivo principal, acreditamos que aí esteja a arte em ser educadora.

Ver o que não está no aparente, no pedagógico, no conteúdo programado, no concreto, mas considerar o crescimento humano que a pessoa adquiriu durante aquela experiência.

Como educadora considero isso como relevante porque ficará por toda vida!

“Tudo isso é aprender. E aprender é sempre adquirir uma força para outras vitórias, na sucessão interminável da vida”. (Cecília Meireles).

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