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A CONSTRUÇÃO DA CEGUEIRA

no dia 28 de Junho de 2013
A CONSTRUÇÃO DA CEGUEIRA

 

Na sua óptica quando é que a cegueira acontece e a quem? Vou dizer o que vem à minha cabeça sobre esta matéria. Tenho pensado muito nela. No entanto, peço que tomem esta explanação meramente como a minha maneira de ver a questão e nada mais. Cada um de nós é um "mirone" da vida e naturalmente vê-a à nossa maneira. Portanto, respeitinho a todos da minha parte.

As pessoas materialistas, cientistas ou não, não estão para fantasias, vêem a Vida como se fosse um segmento de recta. Início da vida na altura da concepção, e fim dela na morte. Não há nada antes nem nada depois. No entanto elas próprias, pessoas materialistas, se distinguem da matéria. Têm necessidade de comer, podem ser punidas ou premiadas, postas na cadeia ou exercer algum cargo socialmente importante, etc. Outras vêem-na como se fosse uma semirecta, como é o caso dos cristãos, especialmente os Católicos. O corpo e a alma são criados na altura da concepção no ventre da mãe ou num tubo de ensaio, mas nunca mais tem fim. Depois da milorte vão para o Céu, às vezes passando por uma coisa chamada Purgatório, ou vão para o Inferno, onde permanecem para todo o sempre. E, há ainda aquelas que aceitam-na, como acontece com os Hindús e Budistas, e seguidores de mais algumas filosofias e religiões, afins, qual uma recta. Não houve início, nem haverá fim. A vida é mais uma experiência numa cadeia de experiências. Para nos tranquilizar dizem que a noção de espaço e tempo são criações nossas. Não há passado nem futuro. Só há presente. Sempre só o Presente. Poderá haver memórias do chamado passado, mas tudo não passa no Presente. O devir é a realização em curso do Presente e nada mais.

Pode-se concluir daqui, que, apesar de sermos feitos de elementos que fomos buscar ao Universo Físico, isto é da Mãe Terra, aos raios solares e cósmicos, não pensamos da mesma forma sobre o assunto em causa.

Mas, para quê toda esta conversa? O que é que isto tem a ver com a Cegueira? Pois bem, propus-me a falar sobre a construção da cegueira, não é verdade?

Puxemos pela nossa fantasia e imaginemos que nos situamos antes da concepção e nascimento, e cada um de nós dizia: "Eu gostaria de experimentar como é aquele Universo Físico, em especial aquele Planeta Terra que parece interessante. Mas esse Universo Físico é muito complexo e cheio de ratoeiras. Terei que entrar nele munidos dos sensores adequados. Terei que construir olhos para ver, ouvidos para ouvir, tacto para sentir, gosto para saborear, etc. e, como não pretendo ficar só num sítio, precisarei de braços e pernas. Como terei que permanecer nele durante, pelo menos algum período razoável, terei que construir um cérebro, pulmões, coração e outros apetrechos para que a minha vida no Planeta seja viável. Portanto, vou aproveitar o embrião que acaba de se formar no ventre daquela mulher, em resultado da junção dum espermatozóide e um óvulo e começar a minha vida. Vou fazer parte da construção do corpo que vai ser meu, espero bem, durante muito tempo. Irei registar tudo o que for acontecendo comigo, tim-tim por tim-tim. É claro que irei ocultando alguns registos ao longo do percurso da experiência da vida para não me sobrecarregar. Depois, quando eu regressar, irei examinar tudo: o meu comportamento, as minhas angústias, as minhas alegrias, os estudos que fiz, trabalho, relacionamento com outros, etc., etc. Não sei o que irei fazer com esse banco de dados. Logo se verá. (Fim da fantasia.)

Voltemos agora para o que é mais palpável. Temos um embrião no ventre de uma mulher. Ele é microscópico. Contudo, tem um tamanho e um determinado peso. Os cientistas dizem-nos que tudo neste Universo Físico é feito de substância. A substância só se manifesta de duas formas e mais nenhuma: matéria e energia. Sabemos que a energia pode-se transformar em matéria e vice-versa. Portanto, vai dar tudo ao mesmo. Dizem-nos também que a matéria é feita de moléculas e estas de átomos. Isso quer significar que o nosso embrião em causa é feito de moléculas de água, ferro, cobre, e outras, mais alguma energia. Pense bem. Estas moléculas ou os seus átomos sempre existiram desde o aparecimento do Universo Físico. Não seria errado, portanto, considerar que estas mesmas moléculas e os átomos em questão já teriam estado em outros animais, nas plantas, rios, montanhas, ou qualquer outra coisa do Universo Físico. É tudo muito antigo e velho. Mas, há alguma coisa nova nele? Sim. Um projecto dinâmico de uma vida individual, de sexo masculino ou feminino, isto é, como que um plano com um calendário, uma calculadora e um relógio. Não só, mais um supervisor que vai assegurar, a cada passo, a execução escrupulosa do projecto até ao final da vida. Esta poderá ser encarada como a mais valia da matéria enquanto o indivíduo viver, e menos valia quando ele deixar de existir. Parece então que veio um elemento novo no que já existia (Universo Físico) e foi-se embora. Este elemento novo é distinto da matéria que o cobre. Pode ser abordado, acarinhado, atormentado, enclausurado, engrandecido, etc. Depois de morto, torna-se imprestável. Não o podem pôr a governar um País, por exemplo.

Nasce uma criança. Mas oh! Traz tudo menos os olhos, respira, chora, quer mamar! Não conseguirá ver. Em vez de construir os olhos, construiu a sua própria cegueira. Que desgraça dele e da família... Nasceu outra criança. Vem com uns olhos tão reduzidos que não prestam para nada... Nasce outra criança. Ao passar pelo canal do nascimento, contraiu da vagina micróbios nos olhos. Infecção grave. Ficou cego. Poderia ter sido salvo da cegueira se tivesse sido devidamente assistido... Já era grande. Tinha dez anos. Atiraram com pedras na escola, os seus companheiros. Atingiram os olhos. Ficou cego para o resto da vida... Foi há cinco anos que ela cegou devido aos diabetes e uma conhecida dela devido ao glaucoma... Aquele cegou devido à intoxicação alimentar... Outro devido a um acidente de viação... A um outro, por ser dissidente político, arrancaram-lhe os olhos na masmorra. Creio que esta pequena amostra é suficiente, no entanto, para dizer que a cegueira pode ocorrer em qualquer fase da vida de um indivíduo e devido a múltiplos factores. Sabemos que algumas cegueiras são reversíveis, outras não. A prevenção em alguns casos resulta bem em outros casos, os médicos vêem-se totalmente impotentes. É assim a Vida.

Agora que já temos cegos para todos os gostos, o que fazer com eles? Como lidar com eles? Qual será o seu lugar no seio da Sociedade? Que perigo representam para o equilíbrio colectivo? Qual é a probabilidade de uma pessoa não cega vir a sê-lo? Começando a responder a esta última pergunta, direi que, para a tranquilidade da grande maioria, a probabilidade de isso vir a acontecer é remota, embora eu acrescente que as desventuras deste tipo vão acontecendo aqui e acolá e parece que não há quem possa pôr termo a isso. É claro que a morte toca a todos invariavelmente, mas a cegueira não é assim felizmente. Quanto às outras perguntas, como os vários tipos de cegueira que conhecemos, por não serem contagiosas, os seus portadores, podem e devem ser tratados, com naturalidade, humanidade adequada. Terem direitos e deveres essencialmente iguais aos dos demais cidadãos. Direito ao carinho e amor da família, dos vizinhos, direito à escolaridade, formação profissional, emprego, habitação, à autonomia, liberdade, à cultura, à aceitação em pé de igualdade sempre que possível, etc.

Eu sei que, muitas vezes, é o desconhecimento sobre a realidade dos que não vêem ou vêem muito pouco, faz com que as pessoas em geral fiquem um pouco atrapalhadas. A sua boa vontade não chega. Elas simplesmente não sabem como serem prestáveis. Quanto a mim, a falta de convívio e falta de esclarecimentos, dificultam a comunicação entre estes grupos. Quem lida todos os dias com pessoas portadoras de deficiência visual, acabam por pôr de parte a valência da cegueira. Tudo o resto resulta das capacidades individuais duns e doutros de forjar um bom relacionamento e posicionamento num determinado contexto humano. Assim como há pessoas não cegas que são alegres por natureza, outras permanentemente enjoadas, outras assim-assim, porque não há duas pessoas iguais na face desta Terra, numca houve, e podemos afirmar com segurança que nunca haverá, poderemos compreender, por isso mesmo, que os cegos são todos desiguais até certo ponto.

Afinal, em que é que as pessoas cegas ou amblíopes (que vêem muito pouco) são comparáveis às que o não são? Vejamos: No que respeita às preferências alimentares, não se pode distinguir uma pessoa da outra na base da cegueira. Na conversação é impossível dizer que é cego ou não. Na actividade sexual, a cegueira não tem pertinência. No relacionamento amoroso ou da amizade, a cegueira é um factor marginal. No trabalho a única diferença que surge é na escolha reduzida de empregos que os cegos têm. O gosto pelo desporto, as modalidades poderão variar, mas o entusiasmo, o desejo, não mostrarão grandes diferenças. Não vale a pena eu continuar nestas considerações. Creio que todos compreenderam onde eu quero chegar. Em resumo, as pessoas cegas ou não cegas pertencem essencialmente à mesma alma humana sem tirar nem pôr.

Vou-vos dar umas dicas elementares que vos ajudarão muito para as primeiras impressões:

Quando encontrar uma pessoa cega e a ocasião for propícia, fale para ela. Arranje um pretexto qualquer. Pode ser a propósito do tempo, como fazem os ingleses. Pergunte-lhe o nome (porque os cegos têm efectivamente um nome como qualquer outra pessoa) e diga-lhe o seu. Se estiverem a jeito de querer atravessar a estrada, pergunte-lhe se ela quer ajuda. Se conduzir uma pessoa no passeio ou dentro de instalações desconhecidas, pegue na mão dela e faça com que ela pegue no seu braço quase junto do cotovelo e ande meio passo à frente dela. O braço indicar-lhe-á muitas coisas, entre elas se vai subir degraus ou a descer porque o braço irá subir ou descer em conformidade. Se vai a curvar, se é preciso apressar, etc. Não fale alto para ela porque ela é cega não surda. Fale com clareza porque ela não pode ler as expressões do seu rosto ou sinais complementares de gestos. Nunca diga aqui ou ali. Diga antes à sua direita ou esquerda em frente. Se estiver à mesa com ela, poderá imaginar o prato dela como se fosse um relógio e poderá dizer-lhe que o arroz está nas doze horas, as batatas nas três horas, etc.
As cadeiras numa sala desconhecida criam por vezes algumas dificuldades. Coloque discretamente a mão da pessoa cega nas costas da cadeira para ela se aperceber da posição da mesma. Não saia de perto dela se tem estado a conversar com ela sem dizer que vai deixá-la. Muitas vezes acontece a pessoa ficar a falar sozinha pensando que o seu interlocutor ainda está presente. É desagradável e não há necessidade disso.

Eu poderia estar a falar para vós durante horas sobre estas coisas e outras, mas é preciso saber dosear as intervenções. Vou ficar por aqui. Espero que eu tenha contribuído para tornar este assunto um pouco mais claro e consequentemente mais fácil de entender.

(Fim do Texto)

Assis Milton
(O Presidente e Fundador)

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