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Opinião
A
CULTURA DOS SURDOS
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A
chamada “cultura dos surdos” sempre foi algo que me intrigou e
que me levantava algumas questões. Alguns “como” e “porquês”…
Parte da actividade levada a cabo pela Portugal Telecom, no âmbito
da sua intervenção social, tem sido para com os surdos. Desta
podemos realçar a participação em projectos transnacionais e o
desenvolvimento de projectos de videotelefonia, suportados na
RDIS, e que nasceram fruto do estudo de soluções específicas de
multimédia. Em suma, verificou-se que era possível, utilizando
as novas tecnologias, promover a comunicação e o acesso ao conhecimento
a estes cidadãos os quais, durante tanto tempo, as tecnologias
de comunicação assentes, quase unicamente, na voz haviam, de certo
modo, votado ao ostracismo. Ainda que o senhor Bell, o célebre
inventor do telefone, fosse professor de surdos.
Na prática o que se pretendeu, ao longo do tempo, foi identificar
que novas tecnologias poderiam conduzir a uma melhor inclusão
social dos surdos. Foram, neste contexto testados e, por vezes,
adaptados equipamentos que servissem de meio para que os surdos
pudessem, através da sua língua mãe, a Língua Gestual Portuguesa
(LGP), comunicar com outros surdos ou com ouvintes, sem que tivessem
que recorrer a terceiros, nomeadamente a intérpretes de LGP.
Mais tarde envolvemo-nos e promovemos outros projectos com vista
ao desenvolvimento e utilização de telefones de texto que, funcionando
sobre a rede telefónica analógica, permitem que se possa conversar
em texto. Do ponto de vista da comunicação, o telefone de texto
funciona como um telefone normal, chamado “de voz”. O telefone
toca como qualquer outro e acende uma luz bem visível, de modo
a permitir ao surdo ver o “toque da campainha”. Caso esta forma
de sinalização não seja suficiente ainda pode ser agregado à linha
de rede um avisador luminoso, que mais não é do que um equipamento
que, ligado a um ponto de luz, por exemplo um candeeiro, acende
sempre que a campainha do telefone toca. Quando se “fala” através
do telefone de texto, a conversa desenrola-se, em tempo real,
como se de uma conversa telefónica de voz se tratasse.
Foi através de uma aula de sensibilização integrada no programa
de formação em LGP, que pude perceber o que é isto da “cultura
dos surdos” de que tanto havia ouvido falar ao longo do contacto
de mais de doze anos com estes cidadãos. Era algo que eu nunca
havia verdadeiramente percebido e que sempre me parecera exagerado.
Julgo que nunca tinha tido a oportunidade de chegar tão perto
dos surdos. Aprender a sua língua mãe, para além de ser do ponto
de vista do desenvolvimento pessoal e profissional extremamente
enriquecedor, deu-me a oportunidade de sentir o mundo dos surdos
de uma nova forma.
Os ouvintes não percebem metade do que os surdos percebem quando
se fala em expressão facial. A cara que cada um faz diz um sem-número
de palavras diferentes. São infindas as nuances entre cada
gesto, tendo em conta o sentido que se lhe quer dar. O gesto tem
de ser meticulosamente executado para que as pequenas diferenças
não se tornem por demais imensas e incompreensíveis. E as gargalhadas
soam porque o que se disse foi um enorme disparate. Há que ter
muita atenção para não cometer calinadas gigantescas.
O Diogo é formador de língua gestual, designer e, eu acrescentaria,
um brilhante embaixador dos surdos. Foi o formador da equipa da
PT, que integrou o primeiro grupo de colaboradores formado em
LGP. Tratou-se de um projecto piloto cujo objectivo, para além
da capacitação em LGP dos 11 colaboradores envolvidos, é o desenvolvimento
de um programa global de formação a ser dado ao atendimento nas
lojas. Pretendemos que os surdos sejam atendidos na sua língua
mãe. Pretendemos capacitar o atendimento nas Lojas PT com pessoas
com conhecimentos básicos em LGP. Foi uma formação de 40 horas,
muito objectivada no atendimento comercial no sector das telecomunicações,
sendo fundamental, à semelhança de qualquer outra língua estrangeira,
praticar, e estabelecer um programa de “refrescamento” da língua,
ou seja, assegurar que aquilo que foi aprendido não vai ser esquecido.
Voltando às aulas de sensibilização, em
particular ao tema “cultura dos surdos”, e àquilo que considero
ter sido para mim uma lição de vida. Efectivamente é um privilégio
poder aprender com aqueles que têm algo de diferente, É na diferença,
seja ela qual for, que nos desenvolvemos como seres humanos.
João Alberto, presidente da Associação Portuguesa
de Surdos, contou na primeira pessoa algumas histórias absolutamente
fantásticas para os ouvintes e que bem representam o que pode
levar ao desenvolvimento de uma cultura diferente da dos ouvintes:
“em criança sempre que abria a porta da rua de minha casa,
ao contrário do que acontecia com os meus pais, nunca estava lá
ninguém do outro lado…porque seria que os meus pais abriam a porta
e sempre havia alguém? E comigo isso não acontecia?!” – só
quando, em adolescente, a mãe mandou instalar um sistema luminoso
ligado à campainha da porta é que o João Alberto se pôde aperceber
que os pais abriam a porta a alguém que havia tocado à campainha.
Imagine nunca ter tido a hipótese de ter ouvido um som na vida.
Na prática do dia-a-dia é, para nós ouvintes, algo deveras difícil
de conceber.
Outra história contada por este homem na orla dos quarenta, muito
seguro e com um apurado sentido de humor, e consta que com uma
mãe sensível e atenta, assenta no facto de em criança julgar que
aos surdos acontecia uma de duas coisas: ou deixavam de o ser
ou morriam, uma vez que ele não conhecia nenhum surdo mais velho
do que ele. Só quando com 14 anos conheceu outros surdos, na associação,
é que teve a certeza de que estava enganado.
Em suma imaginemo-nos a nascer entre extra-terrestres, com regras
de vida e de comunicação bem explícitas e estruturadas, comunicando
num registo absolutamente diferente do nosso, e no
seio dos
quais sempre que nos propuséssemos a comunicar através
da nossa forma natural
de falar, alguém, em nome
da não diversidade, nos punisse.
Seria certamente algo de terrível e insustentável.
Felizmente que a humanidade tende, apesar de tudo, a se humanizar
e a encontrar
caminhos mais inteligentes e por
certo
mais sensíveis,
encontrando na diversidade um factor de desenvolvimento e de progresso.
Saiba-se que os surdos, até 1974, estavam
absolutamente interditos de comunicar em LGP, chegando mesmo a
serem-lhres atadas as mãos às pernas para que tal não acontecesse,
como relatou João Alberto. “O menino tem de aprender a falar”
diziam os educadores. E os meninos eram sujeitos a uma chamada
“reabilitação”, vendo-se gregos para conseguir perceber o que
os mestres pretendiam. As aulas eram bem mais próximas de sessões
de tortura do que de aprendizagem. O filme que foi passado para
que os formandos em LGP pudessem perceber do que se tratava era,
para além de deprimente, arrepiante!... Esta era a regra geral,
salvo um, ou outro caso, fruto da vontade, rebeldia e sensibilidade
de um ou outro professor ou educador. Claro que todos estes constrangimentos
impõem uma forma de estar diferente, a dos surdos.
O Instituto Jacob Rodrigues Pereira da Casa Pia de Lisboa era
um dos poucos locais onde clandestinamente essa transgressão era
cometida. A título de exemplo, e porque é
evidente que, ao nível
da aceitação e percepção
das diferenças das pessoas com deficiência, nos deveríamos
aproximar de outras culturas, talvez percebamos melhor a existência
da cultura dos surdos, se nos transportarmos para a diferença
entre a cultura dos portugueses e a dos nórdicos…
Naturalmente que cada uma tem uma alma própria e uma estrutura
diferente, tendo
cada uma o seu espaço no mundo
e sendo fundamental,
para o equilíbrio do planeta,
que
ambas
sejam plenamente
reconhecidas e
respeitadas.
Foi isto
que,
para além da língua
gestual portuguesa, aprendi neste curso de LGP.
Publicado na Revista RH Magazine, 2003
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